Um homem bonito e de aparência amigável, mas com uma natureza maligna. Andando por Asgard, Loki procurava alguém para pregar mais uma de suas peças. Em tempos como aquele, onde os gigantes nada faziam além de comer e dormir, e os outros deuses estavam em paz entre si, era preciso alguém para criar os problemas.
Ainda faltava muito para Loki, com sua mente calculista, tramar a morte de Balder. Ou de ser confinado por Odin numa caverna e banhado em veneno, por ter insultado os deuses durante um caloroso banquete.
Hoje decidiu fazer algo diferente: iria viajar à Midgard, o mundo dos homens. Era algo novo, mas talvez a pouca inteligência deles o propiciasse brincadeiras mais subjetivas. Talvez, confundir a cabeça de todos.
Escolheu uma data e um lugar, e foi ao seu destino.
Desceu à Midgard, ou Terra, como as pessoas chamavam. Já estavam no "terceiro milênio", e seus filhos aparentemente já haviam sido esquecidos pelos humanos. Até Gaia já foi deixada de lado. Gaia, sim, pois o mundo era vivo.
Sob os mares, sua filha, a serpente gigante Jormungard, que, de tão grande, deu a volta ao mundo e mordeu sua própria cauda, tentava se libertar, gerando as ondas. Nem se lembravam de Fenrir, que estava ainda aprisionado. Um dia ele sairía e causaria o Ragnarök, o fado dos deuses. E ainda havia Hel, expulsa por Odin para Niflheim, a Terra dos Mortos, que hoje tem poder sobre tudo que morre de doença ou de velhice.
Mas tudo isso ficaria para depois. Agora era hora de escolher um alvo, e atormentá-lo.
"Eu manipularia poderosos, os mais influentes do mundo. Jogaria uns contra os outros...", pensou. "Mas aí aquele idiota do Odin vai reclamar. Tenho que ser mais sutil, não posso mudar muito o curso das coisas."
E começou a pregar peças nas pessoas: transformado em um policial, levou um homem de quase cinqüênta anos à loucura, dizendo que ele estava preso por crimes que nunca cometera, sob leis sem nenhuma lógica; seduziu a mesma mulher cinco vezes seguidas, sob disfarses diferentes, e então a confundiu tanto com truques de ventriloquismo e trocas de disfarse constantes que a fez pensar que sonhara tudo aquilo, depois de desmaiar no banheiro de um bar.
Depois de uma dezena de vítimas, Loki decide pregar mais uma última peça. Foi de encontro a um rapaz, sentado na praça, perdido em pensamentos. Preveu o que ele estava pensando e, caminhando sob o disfarce de um homem obeso, com aparência intelectual, afirmou, ao lado do jovem.
-Deus criou tudo de modo perfeito, não?
O jovem o olhou, deu um sorriso educado, e desviou o olhar.
-Você não acha? Deus criou tudo, e faz tudo funcionar perfeitamente. Devemos agradecê-lo sempre que pudermos.
-Se ele existir, não precisa de nós. Não precisa que agradeçamos.
-Você é do tipo que não acredita, não é? - e então se sentou ao lado do rapaz - E se Deus sentasse ao seu lado, e lhe confeçasse sê-lo.
O rapaz o encarou de modo inexpressivo:
-Ele só faria isso se não fosse o deus que você fala.
Na mesma hora Loki entendeu o que o rapaz falava, e se impressionou com a sua dedução. Ele dizia que não era um deus onipotente, pois esse não se importaria. Teria de ser um deus com sentimentos.
-Como chegou numa idéia dessas?
-Deuses são criações humanas. Só precisamos entender os humanos, certo?
O que seria uma brincadeira, mudar todas as idéias sobre o divino que o rapaz tinha, acabou virando um tormento para Loki, que, sem dar qualquer explicação ao rapaz, se levantou e sumiu, sem nem mesmo o jovem notar - algo que somente um deus faria.
"Deuses são criações humanas. Parando para pensar, não sei de onde vim. Sei quem é meu pai, mas, isso, eles", os humanos, "também sabem”.
Essa foi a primeira vez que um deus perguntou suas origens.