Estou apenas só, cá estou sozinho
Medo desse moinho, que fuzila meu ser
Estou a cantar canções serenas, pequenas demais para mim
Estou sozinho morto, vivendo a vida, esculpida num pedaço da tevê
Horrendo som dos passos na cozinha, é a morte que aparece sem dizer
Sem dizer... que não é minha vez
Que ainda devo esperar para morrer
Sem dizer... que não é neste mês
Nem no outro, nem no outro, nem no outro...
Estou apenas só, cá estou sozinho
Cacofonando com o metal da minha voz
Estou soletrando o meu caminnho, curto demais para errar no 't'
Estou sozinho vivo, morrendo de prazer, patético cadáver sem porquê
Beleza caminhando sem deixar-se notar, passos como nuvens para ser
Ser a morte... já chegou a minha vez
Não devo estar contente por morrer
Sem dizer... adeus todos vocês
Até a outra, a outra, a outra...
Eu sei
Que o mundo ainda cai
Sob meus pés, onde nasci
Eu sei
Que confundo as estações
Que estas árvores eu já vi
Eu sei
Que os caminhos são cruzados
Que a vida é déjà vu
Poesia moderna e verborréia adolescente
Metáforas e expressões que não falam água
E acabam por afogar a poesia.
Cai aos pedaços, desmerecendo
tudo o que aprendeu com a multidão,
jogando fora o que o guiava
no meio daquela escuridão
Às vezes sobe à ponta da meninge,
ou à mão, para ser arremessado...
Seguindo então as patas da esfinge
no presente, no futuro e no passado.
E mesmo estando assim arrasado
o poeta - e seu pensamento
- ainda tem pés no chão:
Luta para vencer doloroso fardo,
tendo os outros apenas como tormento
(e como única aliada a razão).
Não existem pessoas boas.
Não há ser algum que o bem faça!
Só seres com blacktie para desgraça
reclamando e reclamando de outras pessoas.
Eu, tu, ele, ou qualquer humano...
Fingimos não ouvir o que o mundo diz,
ficamos só cuidando do próprio nariz...
dia a dia, mês por mês, ano após ano.
Revoltas tão banais são estas redatadas.
Porém estão escritas, logo estão caladas:
o som destas besteiras ninguém vai ouvir.
Mas existem os que gritam junto ao seu ouvido
dizendo que o mundo agora está perdido!
É destes homens que hei de fugir.
Algo natural e iminente:
corpos que encantam as eras
circundam-se e liberam as feras
numa antipatogenia doente.
Cura escaldante que, de repente,
na estrutura dos corpos, se intera,
sendo apenas tudo o que se espera
da luta da aranha com a serpente.