Uma equimose
Uma secreção
Uma suarda
O odor da terra molhada
Do verniz na madeira vigorosa
O sabor da fibra mascada, adocicada
No âmago desse êxtase
Algo novo acabava de surgir
Nos giros microscópicos dos átomos
impulsos, dor e pirogenia
composição mística de fatos
ali então a idéia surgia
Humanos alienados...
Recusam a liberdade
Por mais puro temor!
O humano não confronta
O vazio de sua existência.
Não enfrenta o desafio e
Destrói a sapiência.
O ser autêntico atingirá
O seu próprio projeto
Perpetuando sua essência
Dando sentido à existência.
Em pensamento, presumo,
a mais bela emerge, pura
em chaga, em euforia
E assim se faz, tão fria.
Vem do fundo do meu ser.
Mas, ao contrário do que seria,
Emerge e não solidifica: liquefaz.
E deixa de ser bela,
conforme o tempo passa...
(E nem deixou...)
Não precisas ser tão fria
Já cansei de tudo isso
Não há o que te complete
Já perdi tempo demais tentando fazer
tu ser perfeita
Já não consigo olhar para ti
como se fosse real
Já não sei te compreender,
faço tudo como máquina
Gotas de suor, dor de cabeça
Noites mal dormidas, pensando
em como te adimirar mais uma vez
Mas não é possível
De mim, não vem mais nada
De mim, não vem mais lógica
De mim, não vem mais rimas
Não precisa ser tão fria
Se já não é poesia.
Não precisas ser tão fria.
Mesmo que eu não te complete
ainda sofro por ti.
Faço o que ninguém faria,
procuro o que não se perde,
as coisas que nunca vi.
Não precisas, poesia...
Sei que isso não te impedes
de escrever o fim por mim.
O inalcansável e impreenchível
O belo vazio, a ruptura, a fissura
Incorruptível, nos tortura
Como moscas, estamos ali
Presos à eternidade
Na náusea - oh, náusea
A angústia do para-si
Do poder: doença da humanidade
Os dados são lançados
Por mãos sujas, detrás do muro
Pelo diabo, pelo bom deus
Os humanos, maltratados
Como engrenagens, sobrevivem
Acompanhando o olhar de Orfeu
Consome, contorce
A imaginação, a literatura
Tortura... tortura...
É a pura liberdade
Escolher e ser, efim,
Um morto sem sepultura