Fingiu que não cantava
Fingiu que não podia
Um dia, levantou-se
"Um dia...", fantasia...
Uma noite, uma festa
O que resta, lua, agora?
Descobriu que não cantava
Descobriu que não sabia
Está parado a ver estrelas
Imerso, implora graças
Em versos de pura agonia
Resnasço e sumo
Devoro, como
Não há verbo para descrever meu ato
Juntar nas mãos o cérebro intacto
E parti-lo, não sei ainda como
Não há como descrever
Seria separar o ser da essência
A crença da ciência
O fenómeno da coisa
Seria colocar minha mente
Num patamar mais baixo que eu
Seria germinar a semente
E apenas ver no que deu
Seria não colher os frutos
De minha própria existência
Seria ser tão bruto
Que não visse o ser corrupto
Que minha demência se tornou
Morro e apareço
Defeco, vomito
Agora sei explicar, de fato
Roí a cadeia lógica, como fosse um rato
E parti-a, como fosse um mito
Ali, sozinho, no canto
Quase um esquizofrênico
Fugindo da realidade
Por tua culpa, não encaro
Não rio, não aceno
Não vejo o sereno, a verdade
Ali, no canto, sozinho
Quase um esquizofrênico
Fugindo da realidade
Por tua culpa, repito
Faltam-me palavras
Escravas da dificuldade
Ali, fugindo da realidade
Um esquizofrênico sozinho
Quase no canto
Não é só felicidade
É um misto amargo, agridoce
É saudade e um âmago no peito
São dois seres que vivem num mesmo planeta
Se combatendo com armas nucleares
E tudo, absolutamente tudo, vai pelos ares
Um mal que cega.
Cega e abre meus olhos.
Torna tudo mais claro...
E, nesse ponto,
Tudo torna-se escuridão.
Um mal que cega.
A cega abre meus olhos,
Sem saber o que fez ver.
E, nesse ponto,
Vi somente imensidão.
não tenho vontade de dormir
não tenho vontade de acordar
tenho medo do amanhã
tenho medo do que está por vir
tenho medo de mim mesmo
tenho medo do espelho
não, não tenho medo do escuro
não quero respirar mais tão quente
não quero suar mais tão frio
não faço isso por querer
não faço isso por poder
faço isso porque preciso
faço isso porque, sem isso, não sou nada
faço isso porque sangro sem sangrar
faço isso porque é mais saudável que cortar os pulsos
faço isso porque quero que leiam
nunca acordarei daquele jeito de novo
nunca dormirei desse jeito de novo
(começando por amanhã)
vou ignorar e fingir que passou
passou e pronto
se não passou, o que fazer?
o que fazer?
cantar pra quê?
o que fazer?
cantar por quê?
por que chorar?
e vai indo, indo
esvaindo
invadindo
consumindo
a criatividade
à criatividade